Tratamento dos transtornos de preferência sexual

Definição

Os transtornos de preferencia sexual – TP, também denominados parafilias, específicas e práticas sexuais repetitivas e persistentes, exclusivamente em resposta a objetos ou situações incomuns. Portanto, preferência por parceiro sexual que não seja humano, adulto e vivo (transtorno de objeto sexual) e/ou cuja finalidade não seja excitação sexual e/ou procriação (transtorno do ato) definem esse distúrbio que afeta principalmente indivíduos do sexo masculino.

Prevalência

Estima-se que os TP ocorram em 1% da população. Sua natureza repetitiva, entretanto, explica a alta frequência de vitimas de atos parafílicos. A predominância é eminentemente masculina, numa proporção de 20 homens para cada mulher. Costumam ter início antes dos 18 anos de idade, sendo comuns três a cinco parafilias concomitantes ou alternadas durante a vida do parafílico. A pedofilia é o transtorno da preferência mais comumente relatado, uma vez que, sendo a vitima uma criança, maiores esforços são dirigidos à identificação do agressor. Estão também presentes com alguma frequência na literatura médica e leiga, o exibicionismo e o voyeurismo, quando ocorre flagrante e apreensão; o masoquismo e o sadismo, quando o nível de sofrimento, impingido durante o ato sexual é mal calculado e resulta em lesão grave ou morte de um dos parceiros; também quando a agressividade em excesso é voluntária e deixa sequelas.

As outras parafilias são menos referidas, principalmente se o poder judiciário não é envolvido, como no caso do fetichismo, ou se são menos frequentes como a necrofilia, zeoofilia, entre outros. (Abdo, 2010).

Os autores e os manuais de classificação médica divergem em alguns tópicos na caracterização diagnóstica destes transtornos. Em linhas gerais, podemos dizer que as parafilias ou transtornos de preferência sexual são distúrbios diretamente relacionados à “escolha” do objeto sexual. O termo escolha está em aspas porque até hoje, apesar de toda contribuição da psicanálise e da biologia, não podemos dizer que a definição de um objeto sexual é totalmente inconsciente, determinada socialmente, ou tem sua origem biológica. O que podemos e devemos afirmar é que esta “escolha” é involuntária. (Saadesch, 2010)

Características

As características dos TP ou parafilias mais frequentes são:
  • Pedofilia: Preferência sexual por crianças pré-puberes ou no início da puberdade. Alguns autores estabelecem uma idade máxima de treze anos para a caracterização de pedofilia. O interesse pode ser por meninas, meninos, ou ambos. Se o comportamento é estabelecido por outra criança, ou um adolescente, deve-se tomar muito cuidado para estabelecer este diagnóstico, pois pode se tratar de um acontecimento isolado. Às vezes este quadro também pode ser caracterizado como incestuoso.
  • Zoofilia: atração, fantasia e/ou prática sexual com animais.
  • Sadomasoquismo: Alguns autores dividem em quadro separados, sadismo e masoquismo, outros não. Envolve submissão e/ou inflição de dor, humilhação ou sofrimento. O sufocamento como forma de aumentar o prazer pode ser incluído como um comportamento sadomasoquista.
  • Exibicionismo: fantasia de exibição ou exibição pública dos genitais para obter prazer sexual, tendo outra pessoa como alvo desse ato. Geralmente é um homem heterossexual, muitas vezes casado e com uma vida sexual ativa.
  • Voyeurismo: Ato de observar, sem a anuência ou consentimento, uma pessoa despir-se, ou em atividade sexual. Geralmente é acompanhada de masturbação. Atitudes esparsas de voyeurismo na adolescência é comum e não deve ser considerada anormal. O uso de filmes ou revistas pornográficas para a excitação sexual, também não deve ser considerado patológico ou voyeur, tendo em vista que são confeccionados para esta finalidade
  • Fetichismo: Uso, ou fantasias de uso, de objetos inanimados com a finalidade de estímulo para a realização sexual; muitas vezes os objetos são extensões do corpo humano, como por exemplo, meias ou luvas, mechas de cabelo entre outros.
  • Necrofilia: atração, fantasia e/ou prática sexual com cadáver.
  • Tranvestismo fetichista: Uso de roupas do sexo oposto para a obtenção de prazer sexual. Geralmente é um homem heterossexual, que após a masturbação ou o ato sexual desvencilha-se das roupas. Não deve ser confundido com o que popularmente chamamos de travesti, que é um homossexual que se veste de mulher com o intuito de atrair outros homens. Nem deve ser confundido, também, com transexual.
  • Frotteurismo: tocar ou esfregar-se em uma pessoa sem o seu consentimento
Muitas vezes, as alterações de preferência se associam, transformando-se em múltiplas. Por exemplo, um sadomasoquismo com fetichismo, uma pedofilia com voyeurismo, etc. O tratamento é psicoterápico e farmacológico, a terapia visa identificar os elementos associados ao comportamento parafílico e desenvolver estratégias de relacionamentos mais adequados, associada a medicamentos que inibem a libido, controlando assim a atividade sexual desviante e colaborando com a psicoterapia. A medicação autorizada para esses casos no Brasil, são os antidepressivos, especialmente os inibidores eletivos de receptação da serotonina e os neurolépticos, em doses crescentes até a remissão dos sintomas. Em outros países, é permitida a administração de substâncias antiandrogênicas, como o acetato de ciproterona e o acetato de medroxiprogesterona. O paciente deve ser incentivado ao tratamento, sem o qual os resultados do tratamento são reduzidos. É indispensável fazer o acompanhamento a longo prazo, até que o parafílico atinja 50 anos, quando esse tipo de atividade costuma recrudescer. (Abdo, 2010), (Oliveira et al, 2007). Os parafílicos sofrem não só psiquicamente, mas também socialmente, pois, em nossa sociedade, estes comportamentos são de difícil aceitação. (Abdo, 2010), (Saadeh, 2010).

BIBLIOGRAFIA

Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

American Psychiatric Association. Diagnostic And Statistical Manual Of Mental Disorders. DSM-5.

Abdo, Carmita. Sexualidade humana e seus transtornos / Carmita Abdo, 3ª ed. Atualizada e ampliada – São Paulo: leitura Médica, 2010 .

Conselho Federal de Medina, resolução 1.482/97. Diário Oficial da União, 1997; 19 set.

Saadeh. Alexandre. Parafilias, perversões sexuais ou transtornos de preferencia sexual. Saúde Total, 2010. http://www.saudetotal.com.br/artigos/sexo/pfilia.asp

Saadeh, Alexandre, e Abdo, Carmita. Transtorno de identidade sexual: um estudo psicopatológico de transexualismo masculino e feminino. Tese de doutorado, 2004.

Lawrence, Anne A. Paalelos clínicos e teóricos entre o desejo de amputação do membro e Transtorno de Identidade de Gênero. Archives of Sexual Behavior Junho 2006 , Volume 35 , Issue 3 , pp 263-278, 2006

Oliveira Junior, Waldemar Mendes. Comportamentos sexuais não convencionais e correlações com parâmetros de saúde física, mental e sexual em amostra de 7022 homens e mulheres em cinco regiões brasileiras. Dissertação de mestrado, 2007.

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Madalena Borges

Madalena Borges

ESPECIALISTA EM CASAIS E FAMILIA PELA UNIFESP, ESPECIALISTA EM SEXUALIDADE HUMANA PELA USP, ANALISTA PSICODRAMÁTICA PELA EPP. madalena@socorropsiquico.com.br

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