O Desenvolvimento do Apego na Criança – A intervenção na relação Pais-Bebê

CONFIGURAÇÕES DE APEGO E COMPLEXO DE ÉDIPO

Um bebê nos dois primeiros anos de vida pode apresentar problemas de ordem física e psicológica, que normalmente aparecem combinados. Problemas de alimentação, sono, choro excessivo, raiva e rejeição da mãe ou pai, irritabilidade excessiva, apatia etc. Esses problemas levam os pais a procurar ajuda. Muitos dos pais desejam entender seus sentimentos em relação ao filho, um tipo de sentimento que julgam não deveriam sentir, e por que estão agindo de maneira que não deveriam agir. Desejam ser diferentes. Sentir a agir de outro modo.
Apontamos dois fatores básicos:

    • O primeiro é quando a mãe tem deficiências marcantes em suas capacidades de cuidado materno. É uma mãe pouco sensível ou pouco disponível, que não consegue ser eficiente em prover continência e segurança para o bebê, se não houver outros conflitos conjugais e se a relação amorosa do casal estiver funcionando bem; quando muito a mãe reclama da omissão paterna, se queixa do peso sobre seus ombros, mas se a mãe se sente amada pelo marido ela assume a carga dos cuidados do bebê, com algumas reclamações/solicitações de ajuda, sem maiores problemas, e os problemas no relacionamento pai-filho só vão aparecer mais tarde.

Neste caso a mãe pode ter vivenciado distúrbios no apego com seus próprios pais, ou orfandade (concreta ou simbólica), mães ou pais psicóticos, com distúrbios graves de personalidade, ou seriamente deprimidos, mães abandonadas pelos maridos e que se desestruturam com isso, mães com forte rivalidade edipiana com a filha etc. Para trabalhar esses conflitos e elaborá-las são necessários compreensão e apoio do marido, nas funções de cônjuge-amante, cônjuge-que-cuida, cônjuge-que-descrimina, assim como na função de pai que cuida e protege a criança. O trabalho clínico é levar a pessoa a perceber a própria vivência do sistema de apego na infância, e como o percebe no presente.

Mães que têm memória viva e rica de sua infância e de suas relações de apego com seus pais são mais sensíveis e disponíveis para com seus filhos, proporcionando condições para o desenvolvimento de um apego seguro às crianças. Muitas dessas mães tiveram pais sensíveis e disponíveis e internalizaram inconscientemente um modelo adequado de cuidar de seus filhos.

Outras tiveram infâncias infelizes e mau relacionamento com seus pais, mas o fato de lembrarem e valorizarem o que aconteceu permite uma elaboração que possibilita a quebra de transmissão automática do padrão; tornando-se capazes de oferecer um cuidado melhor para seus filhos.

Mães que não valorizam ou não se lembram do relacionamento com seus pais na infância, ou mães que tinham relatos confusos, incoerentes ou idealizados, têm maior probabilidade de terem filhos com padrão de apego inseguro.

Isto nos mostra a importância de trabalhar a história de vida dos pais, enfatizando seu papel de filho e seus sentimentos em relação a seus pais, como condição necessária para obter uma transformação no papel de mãe ou pai.

    • O segundo é a existência de conflitos conjugais conscientes ou inconscientes, que produzem uma relação amorosa pobre, insatisfatória ou destrutiva. Os cônjuges, sentindo-se frustrados ou mal-amados porque não circula uma energia de Eros no vínculo, não tem forças nem desejo amoroso para o papel de pai e mãe, que exige doação e sacrifício.

Um casal muito infeliz frequentemente coloca sua energia, tempo interno (fantasias e raivas) e externo (tentativas de se relacionar, geralmente repetitiva e fracassada) no relacionamento. Não sobra energia criativa e tempo saudável para a criança. Um casal infeliz muitas vezes vive inundado pelo seu relacionamento através das frustrações e carências que ele provoca, a infelicidade entre os dois invade o psiquismo como um buraco negro que engole material psíquico de outros papéis. Exemplo:

    • Bebê pode ser prejudicado por falta de sintonia, abandono, rejeição ou pelo uso defensivo da relação mãe-filho.
    • Mães que sufocam seus filhos porque fazem deles um substituto compensatório para outras frustrações da vida.

O filho pode ser afetado porque se torna o depositário das partes não vividas ou reprimidas dos pais.
Segundo Jung “o que geralmente tem o mais forte efeito psíquico na criança é a vida que os pais… não viveram. Para colocá-lo com rudeza, é aquela parte da vida da qual eles sempre escapam, provavelmente por meio de uma mentira virtuosa”.

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Madalena Borges

Madalena Borges

ESPECIALISTA EM CASAIS E FAMILIA PELA UNIFESP, ESPECIALISTA EM SEXUALIDADE HUMANA PELA USP, ANALISTA PSICODRAMÁTICA PELA EPP. madalena@socorropsiquico.com.br

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